Das poucas coisas em que consegui ser medíocre, dessas são os cálculos e a música e a pintura e o desenhar. Ao cálculo, um pouco me dediquei no período do colégio; à pintura e o desenhar, eram os lápis de cor e o caderno de desenho; à música apenas emprestei meus ouvidos e coração. Mesmo quando tive um violão ainda jovem, não me esforcei o suficiente para aprender, ao menos, as notas. O que cria não lamentar, pois encontrei meu ápice na escrita, na leitura, na interpretação das leis de Deus e dos homens. Sim, escrever e ler são meus pontos fortes, com direito a editorial de sites de redação sobre livros clássicos e uma quase nota mil na redação do Enem. Porém, a música… Ah, a música! Ela me encanta e me embala, todos os dias de minha vida ao longo dos anos. Meu gosto musical, assim como o literário, me fez conhecer o mundo, Através deles conheci os russos. E, se um dia minha mente pudesse se tornar uma sinfonia, ou, fosse interpretada em notas musicais, ela seria Concerto para Piano n.º 2 em Dó Menor, Op. 18, de Sergei Rachmaninoff.
A escolha dessa obra não é meramente ao acaso. Na verdade, não é uma escolha. Trata-se de uma íntima decifração da mente humana transtornada, hora sucumbindo ao tormento de forma frenética, hora se deleitando em uma calmaria que soa melancólica, com uma intensa energia que não permite nenhum sentimento morrer, apenas fluir. Se eu pudesse descrever a mente de alguém transtornado, seria dessa forma. O concerto representa o triunfo da vontade sobre a apatia, da melodia sobre o ruído e da resiliência sobre a autodestruição. É como se fosse possível ver a tensão e a harmonia se sobrepondo uma sobre a outra, como a energia de uma sinapse nervosa sob estresse oxidativo.
A história por trás da obra também reflete muito mentes transtornadas. 35 minutos de pura desordem mental em forma de lirismo expansivo, de alguém que acabara de sair de três anos de depressão. Eu poderia dizer que gosto de me identificar com algo mais leve, mas é um alívio que tenha no mundo algo capaz de descrever minha mente. E somente alguém como Rachmaninoff poderia ser capaz de fazer isso. Após ver intimamente a desordem mental causada pela depressão profunda, sua obra reflete seu interior: uma luta diária para se agarrar a sanidade que ainda resta em meio ao caos. Talvez esse seja um ótimo gargalo para eu me dedicar ao piano e poder me expressar por ele.

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