A série da The Haunting, do cineasta americano Mike Flanagan, se tornou uma das minha preferidas. Além de ser muito bem produzida, apresentar personagens bem desenvolvidos e histórias que sempre conversam comigo de alguma forma, estas sempre são inspiradas em livros clássicos. A segunda temporada, lançada em 2020 pela Netflix, me prendeu mais ainda a atenção, pois nela encontrei alguns elementos que pude comparar ao meu livro favorito da vida: O Morro dos Ventos Uivantes, escrito por Emily Brontë.
Se você assistiu a primeira temporada dessa série - A Maldição da Residência Hill - e quer assistir a segunda por causa do clima de terror que fora apresentado na primeira, meu conselho sobre é: não vá com tanta sede ao pote. A Maldição da Mansão Bly diverge um tanto de A Maldição da Residência Hill, não apenas no enredo, mas, pela primeira ser também sobre uma história de amor, não apenas de fantasmas. A primeira tem algumas poucas referências a segunda, mas, nada de muito relevante quanto ao contexto e a trama.
A série em si tem a ambientação de uma clássica história de fantasmas: uma antiga e enorme mansão, um charco, uma família separada pela morte e cheia de segredos. Mas, sem muitas delongas, vou pular para os pontos que me chamaram atenção quanto as referências “bronteanas” que eu encontrei por aqui. E deixo registrado aqui que isso é uma observação e opinião pessoal.
A primeira delas é a história se passar em uma charneca inglesa. A ambientação de O Morro dos Ventos Uivantes é um charco e, da mesma forma como em A Maldição da Mansão Bly, os personagens possuem um apego sentimental ao lugar.
Outro ponto que me chamou bastante atenção foi a ênfase dada ao clima. No início da série, a narradora diz que o tempo em Bly se alinhava ao humor das crianças e mudava tão repentinamente quanto o mesmo. Em O Morro dos Ventos Uivantes, o clima não só acompanhava o humor dos personagens, mas também, compõe o cenário das diversas situações tensas vividas por eles.
A questão da morte, destacada pela personagem Jamie, interpretada por Amelia Eve, no 6º episódio, de uma forma romantizada e bela de ser admirada também se assemelha muito a abordagem que Emily Brontë possui em seu livro, uma visão de mundo muito bem construída pela autora em sua obra.
Por fim, mas, não menos importante – ouso dizer que é o mais relevante até agora – é o fato de atribuir a objetos o fantasma de seus respectivos donos. Tanto o livro, quanto a série fazem isso com maestria. E esse ponto de semelhança foi o que realmente me chamou mais atenção. Uma das personagens da série acreditava fielmente que seus pertences não só seriam a herança de sua amada filha, mas, também seria o que a levaria novamente ao seio de sua família. Em O Morro dos Ventos Uivantes, Emily dá ênfase ao fantasma de Catherine Linton da mesma forma, ele se faz presente através de seus objetos pessoais, seus registros de escrita e rabiscos de desenho, o que se supõe ser algo que a própria autora poderia ter um estimado valor pelos pertences daqueles que a deixaram.
Agora, uma divergência importante: em O Morro dos Ventos Uivantes, não só o fantasma de Catherine se mantém vívido, como também suas feições no túmulo se mantêm intactas, mesmo após 18 anos de sua morte. O tempo não foi capaz de tocar seu corpo, enquanto sua alma vagava livremente pela charneca de Gimmerton. Em A Maldição da Mansão Bly, o tempo é cruel até mesmo com os fantasmas. Estes perdem suas feições e, dia após dia, esquecem absolutamente tudo sobre a vida que tiveram, restando-lhes apenas uma sensação do que foram um dia, completamente presos ao lugar que morreram.
Apesar de ter enxergado esses comparativos, o criador da série não confirmou nada sobre ter se inspirado em O Morro dos Ventos Uivantes. Na verdade, a segunda temporada da série é inspirada A outra volta do parafuso, romance escrito por Henry James e publicado em 1898 e a primeira temporada foi inspirada em A Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson.
Estou aguardando ansiosamente por uma terceira temporada e há rumores de que realmente possa acontecer. Devido alguns easter eggs que peguei durante a segunda temporada - e posso muito bem estar vendo coisa onde não tem -, estou apostando que agora possa ser em um clássico que envolva mansões pegando fogo, como Rebecca, de Daphne du Maurier ou Jane Eyre, de Charlotte Brontë.
Texto retirado do meu finado bookstagram @mergulhoemcafe.
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